Dr. Bruno Psiquiatra Uberlândia

-Psiquiatra Uberlandia
Ansiedade constante? Quando a preocupação deixa de ser normal e se torna um sinal de alerta

Olha, nunca pensei que fosse escrever sobre isso aqui. Mas depois de tudo que passei com minha irmã mais nova nos últimos dois anos, sinto que preciso compartilhar. Talvez ajude alguém que esteja passando pela mesma situação que a gente.

Tudo começou quando a Ju tinha 22 anos e estava no último ano da faculdade. No começo, achamos que era só estresse da formatura, sabe? Ela sempre foi meio ansiosa, mas começou a ficar… diferente. Primeiro foram as noites mal dormidas, depois vieram os comentários estranhos sobre os vizinhos “falando dela” através das paredes.

A psicose não é como mostram nos filmes. Não é sempre aquela coisa dramática e óbvia. Às vezes começa devagarzinho, quase imperceptível. A família fica naquela de “ah, é fase”, “vai passar”. Eu mesma demorei pra aceitar que não era só uma crise existencial típica de quem tá pra se formar.

Os primeiros sinais que percebi foram sutis. A Ju começou a interpretar tudo de forma… como posso explicar… meio paranoica. Se alguém ria na rua, era dela que estavam rindo. Se o telefone tocava e parava, alguém estava “vigiando” nossa casa. Ela passou a trancar a porta do quarto com uma cadeira encostada – algo que nunca fez na vida.

Reconhecendo os sinais: quando a realidade começa a se distorcer

Depois de meses acompanhando a Ju e conversando com psiquiatras, aprendi que os sintomas psicóticos são bem mais variados do que imaginava. Não é só “ouvir vozes” – embora isso também aconteça.

As alucinações da minha irmã começaram sutis. Ela dizia ouvir murmúrios vindos do apartamento de cima, mesmo quando os vizinhos viajavam. Mais tarde, passou a ver “sombras” no canto do olho. Lembro de uma tarde que ela ficou parada na janela por quase uma hora, observando algo que eu simplesmente não conseguia ver.

Os delírios foram ainda mais difíceis de lidar. A Ju desenvolveu uma teoria elaboradíssima sobre como nossa família estava sendo monitorada por causa do trabalho do meu pai (ele é contador, gente… nada mais comum que isso!). Ela passou a falar baixinho ao telefone, cobria a câmera do notebook com fita adesiva e chegou a jogar fora o celular porque tinha certeza de que estava “grampeado”.

O pensamento desorganizado também é um sintoma que pouca gente conhece. A Ju começou a pular de assunto em assunto numa velocidade que era impossível acompanhar. Às vezes, no meio de uma frase sobre o trabalho de conclusão de curso, ela emendava falando sobre uma teoria conspiratória que tinha lido na internet, depois mudava pra reclamar da comida, e terminava perguntando se eu tinha notado que o gato do vizinho estava “diferente”.

O comportamento que mais me assustou

O que mais me preocupou foi quando ela parou de cuidar da higiene pessoal. A Ju sempre foi vaidosa, dessas que não sai de casa sem passar batom. De repente, passou dias sem tomar banho, dormia com a mesma roupa, não escovava os dentes. Quando eu tentava conversar sobre isso, ela ficava irritada e dizia que tinha “coisas mais importantes” pra se preocupar.

A falta de insight – ou seja, a pessoa não perceber que está doente – é talvez o aspecto mais frustrante. Por mais que eu e meus pais tentássemos explicar que ela precisava de ajuda, a Ju tinha certeza absoluta de que nós é que não estávamos vendo a “realidade”. Era como tentar convencer alguém de que o céu é azul quando ela tem certeza de que é verde.

Buscando ajuda: o caminho até o diagnóstico

Convencer a Ju a procurar ajuda foi uma batalha de meses. Ela só aceitou ir ao médico quando prometemos que era só um “check-up geral” por causa do estresse da faculdade. Mentimos? Talvez. Mas às vezes a gente precisa tomar decisões difíceis quando quem amamos não consegue ver que precisa de ajuda.

O primeiro psiquiatra que consultamos foi meio desastroso. Um senhor mais velho que não soube lidar com a resistência dela. A Ju saiu do consultório furiosa, dizendo que nunca mais voltaria a um “charlatão” daqueles. Tivemos que procurar outro profissional, uma psiquiatra mais jovem que teve mais paciência pra estabelecer vínculo com ela.

O diagnóstico não veio de imediato. Foram várias sessões, alguns exames pra descartar causas físicas (problemas na tireoide, uso de substâncias, etc.), e muita conversa. A psiquiatra explicou que episódios psicóticos podem ter várias causas: desde estresse extremo até o início de transtornos como esquizofrenia ou transtorno bipolar.

No caso da Ju, foi diagnosticado um episódio psicótico breve, provavelmente desencadeado pelo estresse do final da faculdade combinado com uma predisposição genética (descobrimos que meu avô materno tinha tido episódios similares, mas na época ninguém falava sobre isso).

O tratamento começou com antipsicóticos em dose baixa. Confesso que fiquei com medo dos efeitos colaterais – tinha lido cada coisa na internet que me deixou apavorada. Mas a psiquiatra foi muito cuidadosa, explicando cada passo e ajustando a medicação conforme a resposta da Ju.

A melhora não foi imediata. Levou algumas semanas pra ela começar a questionar as próprias percepções. O primeiro sinal de que o remédio estava funcionando foi quando ela comentou, meio sem jeito: “Será que eu tava meio paranóica mesmo com aquela história dos vizinhos?”.

Hoje, quase dois anos depois, a Ju está bem. Faz terapia regularmente, toma a medicação direitinho e conseguiu até um emprego na área dela. Ainda tem dias mais difíceis, especialmente quando está muito estressada, mas aprendeu a reconhecer os sinais e pedir ajuda antes que a situação saia do controle.

O que aprendi com toda essa experiência? Primeiro, que psicose não é “loucura” – é um problema médico que tem tratamento. Segundo, que o apoio da família é fundamental, mesmo quando a pessoa não quer ser ajudada. E terceiro, que ainda existe muito preconceito e desinformação sobre saúde mental no Brasil.

Se você suspeita que alguém próximo está apresentando sintomas psicóticos, não hesite em procurar ajuda profissional. Quanto mais cedo o tratamento começar, melhores são as chances de recuperação. E lembre-se: você não está sozinho nessa jornada. Existem grupos de apoio, profissionais capacitados e, principalmente, esperança.

A psicose assusta porque mexe com nossa percepção da realidade, mas com tratamento adequado, é possível ter uma vida normal e feliz. A Ju é a prova viva disso.