Dr. Bruno Psiquiatra Uberlândia

-Psiquiatra Uberlandia

A gente já conversou um bocado sobre aquela montanha-russa que é o transtorno bipolar, né? Sobre os altos e baixos, a euforia e a depressão. Mas, outro dia, me peguei pensando numa palavrinha que muitas vezes passa batida no nome completo da condição: “afetivo”. Transtorno Afetivo Bipolar. O que será que esse “afetivo” quer dizer na prática? Será que é só um jeito mais técnico de falar sobre as emoções? Ou tem algo mais profundo aí, uma chave pra gente entender melhor essa condição que tanto desafia quem a vive e quem convive? Foi essa curiosidade, essa vontade de “comprar” mais uma camada de entendimento, que me fez querer “instalar” um novo olhar sobre o TAB. Porque, se a gente pensa bem, o “afetivo” é o coração da nossa experiência humana, não é mesmo? É o que colore nossos dias, o que nos conecta com os outros, o que dá sentido à vida. E quando essa bússola interna, a dos afetos, entra em pane?

Lembro que, no meu primeiro mergulho para entender o transtorno bipolar, foquei muito nas fases, nos comportamentos visíveis, naquela gangorra de humor que tanto impressiona. Mas a palavra “afetivo” ficou ali, piscando no canto da mente, como um lembrete de que a questão talvez fosse ainda mais intrincada. Comecei a perceber que não se trata apenas de estar “feliz demais” ou “triste demais”, mas de uma alteração fundamental na própria capacidade de sentir, de processar e de expressar as emoções de uma forma, digamos, equilibrada com o contexto. A textura dessa reflexão é como tentar entender as nuances de uma aquarela complexa, onde as cores não só variam em intensidade, mas também se misturam de formas inesperadas, criando tonalidades que a gente nem sabia que existiam. E o som? Talvez seja o de um piano tocando uma melodia ora frenética, ora melancólica, mas sempre com uma intensidade que parece vir das profundezas da alma.

Para Além da Montanha-Russa: Quando o ‘Afetivo’ no Nome Revela a Essência do Transtorno

Quando a gente fala em “afeto” na psicologia, não estamos falando só de carinho ou afeição, como no uso popular da palavra. Afeto, nesse contexto, é um termo mais amplo, que engloba todo o espectro das nossas emoções, dos nossos sentimentos, do nosso humor. É a nossa resposta emocional ao mundo, interna e externamente. Então, quando falamos em Transtorno Afetivo Bipolar, estamos dizendo que o problema central reside justamente aí: na forma como a pessoa vivencia e regula seus afetos. Não é só uma questão de “humor instável”, mas de uma sensibilidade emocional que, em certos momentos, parece estar em curto-circuito. As emoções, que para a maioria de nós têm uma certa gradação, uma certa proporcionalidade aos acontecimentos, na pessoa com TAB podem surgir com uma força avassaladora, desconectadas do que está acontecendo ao redor, ou com uma intensidade desproporcional.

Um dos desafios para quem está de fora é justamente compreender essa dimensão. É fácil julgar uma explosão de raiva como “falta de controle” ou uma euforia excessiva como “irresponsabilidade”. Mas e se, por trás disso, houver uma incapacidade genuína de modular esses afetos? Um erro que eu mesma, antes de me aprofundar, talvez cometesse era o de achar que, com um pouco de “esforço”, a pessoa conseguiria “se controlar”. Que ingenuidade! É como pedir para alguém com febre alta simplesmente “esfriar o corpo” com a força do pensamento. O “afetivo” no TAB nos lembra que estamos falando de uma condição que atinge o cerne da nossa capacidade de sentir o mundo. E isso, minha gente, é de uma complexidade e de uma delicadeza que exige muito mais do que julgamento; exige compaixão e busca por conhecimento.

A Bússola Interna em Pane: Como a Desregulação dos Afetos Molda a Experiência do Mundo e de Si Mesmo

Imaginar a vida com essa bússola afetiva desregulada me dá um nó na garganta. Pensa só: um dia, uma notícia boa te causa uma alegria tão intensa que beira a agonia, te tira o sono, te faz gastar o que não tem. No outro, uma pequena crítica te afunda num poço de tristeza e autodepreciação que parece não ter fundo. As cores do mundo, que para nós têm uma certa constância, para quem vive com o TAB podem mudar de tonalidade de forma abrupta e radical. A forma como a pessoa se percebe, sua autoestima, sua identidade, tudo isso fica profundamente impactado por essa instabilidade afetiva. Como construir um senso de “eu” coeso quando suas emoções mais básicas parecem te trair a todo momento?

As reações das pessoas ao redor, se não houver compreensão sobre essa natureza “afetiva” do transtorno, podem ser devastadoras. Aquele amigo que se afasta porque não aguenta mais os “altos e baixos”, o chefe que demite por causa da “instabilidade emocional”, o parceiro que desiste por se sentir exausto. Cada uma dessas experiências, para quem já luta com uma desregulação interna dos afetos, pode ser mais um golpe na já fragilizada autoestima. A rotina de quem convive de perto com alguém com TAB não tratado é, muitas vezes, um caminhar constante sobre cascas de ovos, tentando antecipar qual será a “temperatura emocional” do dia, qual “afeto” estará no comando. É uma tensão que desgasta, que gera medo, que pode minar até os laços mais fortes se não houver informação, tratamento e uma rede de apoio muito bem estruturada.

Tecendo Fios de Estabilidade no Tear das Emoções: A Importância de um Cuidado que Alcance o ‘Coração da Mente’

Entender o “afetivo” no Transtorno Afetivo Bipolar nos ajuda a compreender por que o tratamento precisa ir além de simplesmente “controlar o humor”. Ele precisa alcançar esse “coração da mente”, ajudando a pessoa a reconhecer, compreender e, aos poucos, a modular melhor seus afetos. Os medicamentos estabilizadores de humor são cruciais, claro, porque atuam nessa química cerebral que está em descompasso. Mas a psicoterapia é igualmente fundamental, pois oferece um espaço seguro para a pessoa explorar suas emoções, desenvolver estratégias para lidar com a intensidade dos afetos, reconstruir sua autoestima e seus relacionamentos. Uma dica prática que aprendi é que, ao conversar com alguém que tem TAB, validar a intensidade do que ela sente é mais importante do que tentar “consertar” ou “minimizar” a emoção. Um “eu imagino o quão intenso isso deve ser para você” pode ser muito mais terapêutico do que um “não fica assim”.

A beleza de um tratamento bem-sucedido, e eu já vi isso acontecer, é ver a pessoa reaprendendo a confiar na própria bússola interna. Não que os afetos desapareçam ou que a vida se torne um mar de calmaria – afinal, sentir é humano! Mas as oscilações se tornam menos extremas, mais manejáveis. A pessoa consegue navegar pelas suas emoções sem ser constantemente afogada por elas. É como se o pianista da alma, antes errático, começasse a encontrar uma melodia mais harmoniosa, com seus momentos de alegria e tristeza, de agitação e calma, mas dentro de uma partitura que faz sentido. E isso, essa possibilidade de reencontrar um equilíbrio afetivo, de sentir o chão firme sob os pés mesmo quando as emoções vêm e vão, é o que nos dá esperança e reforça a importância de um cuidado que seja, verdadeiramente, afetivo.