Dr. Bruno Psiquiatra Uberlândia

-Psiquiatra Uberlandia

A adolescência, por si só, já é um turbilhão, né? Um corpo em transformação, hormônios à flor da pele, a busca por uma identidade, a necessidade de pertencimento… É como navegar em mar revolto, tentando encontrar um porto seguro. E, no meio dessa travessia, muitas vezes surge um inimigo cruel, silencioso, que se instala sorrateiramente e transforma a relação com a comida e com o próprio corpo num verdadeiro campo de batalha: os transtornos alimentares. Confesso que, durante muito tempo, esse universo era para mim algo distante, coisa de “capa de revista” ou de filmes que retratavam realidades que pareciam não me pertencer. Até que a vida, com seus jeitos tortos de nos ensinar, trouxe o tema para mais perto, através das filhas de amigas, de relatos angustiados em grupos de mães, e da observação atenta do mundo cada vez mais imagético e cruel em que nossos adolescentes estão imersos. A “compra” da real dimensão desse problema, e da urgência em falarmos sobre ele, foi um soco no estômago. Foi preciso “instalar” um novo olhar, mais atento, mais crítico, e infinitamente mais compassivo.

Lembro de uma feira de ciências na escola da minha filha, anos atrás. Enquanto os adolescentes apresentavam seus projetos com aquele misto de orgulho e nervosismo, meu olhar se deteve num grupo de meninas, todas lindas, vibrantes, mas com uma preocupação quase obsessiva em não tocar nos salgadinhos e doces da cantina. Comentários como “isso engorda horrores”, “só uma folha de alface pra mim, obrigada”, ditos com uma naturalidade assustadora para a idade. A textura daquela cena era de uma fragilidade disfarçada de autocontrole. O som que pairava no ar não era o da alegria adolescente, mas o de uma contagem silenciosa de calorias, de uma comparação constante com o corpo da outra. Ali, naquele microcosmo, eu comecei a entender que o “espelho quebrado” da adolescência não reflete apenas as espinhas e as mudanças físicas, mas uma autoimagem muitas vezes distorcida, bombardeada por padrões de beleza irreais que transformam a comida em vilã e o corpo em eterno projeto inacabado.

Quando a Imagem no Espelho se Torna um Campo de Batalha: Os Primeiros Sinais Sutis da Guerra Interna

Os transtornos alimentares – seja a anorexia nervosa, com sua restrição alimentar severa e busca incessante pela magreza; a bulimia nervosa, marcada por episódios de compulsão alimentar seguidos de métodos compensatórios como vômitos ou uso de laxantes; ou o transtorno de compulsão alimentar, onde há uma ingestão exagerada de alimentos com sensação de perda de controle – costumam dar seus primeiros sinais de forma sutil, quase invisível para um olhar desatento. Começa com uma “dieta inocente”, um corte “só do açúcar e do glúten”, um interesse repentino por aplicativos de contagem de calorias, uma atividade física que de repente vira obsessão. E aí, quando a gente menos espera, aquela preocupação “normal” com a aparência, tão comum na adolescência, se transforma numa verdadeira guerra interna, onde o espelho se torna o pior inimigo e a balança, o juiz implacável.

Um dos grandes desafios é que vivemos numa cultura que, de certa forma, valoriza e até incentiva muitos desses comportamentos. A “vida saudável” vendida nas redes sociais, com seus corpos esculpidos e pratos milimetricamente montados, muitas vezes esconde por trás uma relação doentia com a comida e uma busca frenética por um ideal de perfeição que simplesmente não existe. Um erro que nós, pais e adultos, muitas vezes cometemos é não perceber a linha tênue entre uma alimentação equilibrada e uma restrição perigosa, entre o prazer do exercício e a compulsão que lesiona. Ou, pior ainda, fazemos comentários – aparentemente inofensivos – sobre o peso ou a aparência dos nossos filhos, ou mesmo sobre os nossos próprios corpos, sem nos darmos conta do impacto que isso pode ter numa mente em formação, já tão vulnerável às pressões externas. A reação dos adolescentes, muitas vezes, é de esconder, de disfarçar. Aquela ida frequente ao banheiro depois das refeições, as roupas largas para esconder a magreza excessiva, o isolamento social para evitar situações que envolvam comida… são gritos silenciosos por ajuda.

Entre a Negação e o Grito por Socorro: Decifrando a Complexa Teia dos Transtornos Alimentares

Quando um transtorno alimentar se instala, a vida do adolescente e de toda a família vira de cabeça para baixo. A comida, que deveria ser fonte de prazer, de nutrição, de convívio social, transforma-se em fonte de angústia, culpa e segredo. Lembro do relato de uma mãe, com a voz embargada, contando como as refeições em família se tornaram um campo minado, cheio de tensão, negociações e lágrimas. O filho, antes um menino alegre e sociável, definhava a olhos vistos, mas negava veementemente que tivesse qualquer problema. Essa negação, aliás, é uma característica muito comum, e um dos maiores obstáculos para a busca de ajuda. O adolescente, muitas vezes, não se vê doente. Pelo contrário, na anorexia, por exemplo, a perda de peso pode trazer uma sensação ilusória de controle e poder, tornando ainda mais difícil quebrar o ciclo.

O impacto na saúde física é devastador: desnutrição, problemas cardíacos, osteoporose, falência de órgãos. Mas o sofrimento psíquico é igualmente avassalador. A obsessão com o corpo e a comida domina todos os pensamentos, a autoestima despenca, o isolamento se aprofunda, e não raro surgem outros transtornos associados, como depressão e ansiedade. Aquele “espelho quebrado” não reflete apenas um corpo magro ou gordo, mas uma alma em pedaços, faminta de aceitação, de amor próprio, de paz. Entender a complexidade desses transtornos, que envolvem fatores genéticos, psicológicos, familiares e socioculturais, é o primeiro passo para oferecer um apoio verdadeiramente eficaz. Não é “frescura”, não é “falta do que fazer”, não é “para chamar a atenção” da forma pejorativa como muitos pensam. É um pedido de socorro desesperado, vindo de um lugar de muita dor.

Reconstruindo Pontes com o Corpo e a Comida: A Longa Jornada Rumo à Cura e à Aceitação

A boa notícia é que os transtornos alimentares têm tratamento. E a recuperação, embora muitas vezes seja uma jornada longa e cheia de percalços, é totalmente possível. O tratamento ideal é multidisciplinar, envolvendo médicos (clínicos, psiquiatras, endocrinologistas), psicólogos e nutricionistas com experiência na área. É preciso cuidar do corpo e da mente, simultaneamente. E o papel da família nesse processo é absolutamente crucial. Criar um ambiente de acolhimento, de diálogo aberto, de paciência e, principalmente, de amor incondicional, faz toda a diferença. Uma dica prática, que aprendi com especialistas, é evitar transformar as refeições em momentos de conflito ou vigilância excessiva. O foco deve ser em resgatar uma relação saudável e prazerosa com a comida, e não em “fazer o adolescente comer a qualquer custo”.

Minha preferência pessoal, como mãe e como observadora atenta desta sociedade que tanto nos pressiona, é por uma abordagem que desconstrua os padrões de beleza irreais e que promova a aceitação corporal e a valorização da diversidade. Precisamos ensinar nossos filhos – e reaprender nós mesmos – que o valor de uma pessoa não está no número que a balança mostra ou no tamanho da roupa que ela veste. Precisamos cultivar a autoestima deles desde cedo, elogiando suas qualidades, seus talentos, sua essência, e não apenas sua aparência. Na minha rotina, passei a ter um cuidado redobrado com a linguagem que uso em casa, a evitar comentários depreciativos sobre meu próprio corpo na frente da minha filha, a incentivar uma alimentação equilibrada, mas sem neuroses, e a conversar abertamente sobre as armadilhas das redes sociais.

A jornada para reconstruir a ponte com um corpo que foi maltratado e com uma mente que foi atormentada pela obsessão é delicada. Exige tempo, paciência, muito apoio profissional e, acima de tudo, um olhar compassivo. Mas ver um adolescente reaprendendo a se alimentar com prazer, a se olhar no espelho com mais gentileza, a redescobrir a alegria de viver para além dos números e das formas, é uma das coisas mais emocionantes que existem. É como ver um espelho que estava em mil pedaços ser cuidadosamente colado, não para esconder as rachaduras, que sempre farão parte da sua história, mas para voltar a refletir a beleza única e imperfeita de quem ousou se reconstruir. E essa, sim, é uma imagem que vale a pena celebrar.