Dr. Bruno Psiquiatra Uberlândia

-Psiquiatra Uberlandia
Ansiedade constante? Quando a preocupação deixa de ser normal e se torna um sinal de alerta

Nunca pensei que escreveria sobre isso de forma tão pessoal, mas aqui estamos. Depois de anos convivendo de perto com questões relacionadas ao humor – tanto minhas quanto de pessoas queridas -, senti que era importante compartilhar o que aprendi pelo caminho. Não sou médica, mas sou alguém que passou anos observando, estudando e, principalmente, vivenciando na pele como essas condições afetam nossa vida.

Lembro da primeira vez que ouvi falar em “transtorno de humor” de forma séria. Foi quando minha irmã mais nova começou a apresentar mudanças comportamentais estranhas durante a adolescência. Achávamos que era “fase”, sabe? Aquela coisa de teenager mesmo. Mas conforme os meses passavam, percebi que havia algo mais profundo acontecendo.

Foi ela quem me ensinou, sem querer, que transtorno de humor não é frescura, preguiça ou “falta de força de vontade”. É uma condição médica real, com sintomas concretos e que precisa de tratamento adequado. Hoje, anos depois, consigo falar sobre isso com mais leveza – ela está bem, fazendo terapia e medicação quando necessário.

A questão é que a gente vive numa sociedade que ainda tem muito preconceito com saúde mental. Quantas vezes já ouvi pessoas falando “ah, depressão é coisa de rico” ou “antigamente ninguém tinha essas frescuras”. Pois é, antigamente também ninguém falava abertamente sobre câncer, diabetes ou hipertensão. Isso não significa que essas doenças não existiam.

Depressão: muito além da tristeza comum

Quando minha irmã foi diagnosticada com depressão, confesso que no início não entendi a gravidade. Pra mim, depressão era ficar triste por uns dias e depois passar. Que ingenuidade a minha, né? A realidade é bem mais complexa e, sinceramente, assustadora.

A depressão não é aquela tristeza que você sente quando termina um relacionamento ou perde um emprego. É como se fosse um buraco negro emocional que suga toda a energia, motivação e esperança da pessoa. Minha irmã descrevia como se tivesse um peso gigante no peito o tempo todo, uma sensação de vazio que não passava nunca.

Lembro de uma conversa que tivemos numa tarde de domingo. Ela estava deitada no sofá da sala há horas, apenas olhando pro teto. Quando perguntei se queria almoçar, ela respondeu que não conseguia nem pensar em comida, que tudo parecia sem sabor, sem sentido. Naquele momento, entendi que não era drama – era uma condição que literalmente alterava a forma como ela percebia o mundo.

Os sintomas foram aparecendo gradualmente. Primeiro, a perda de interesse pelas coisas que sempre gostou de fazer. Ela adorava pintar, passava horas com os pincéis e telas. De repente, os materiais ficaram guardados por meses. Depois veio a insônia – ou às vezes o excesso de sono. Passava dias dormindo 12, 14 horas, e mesmo assim acordava cansada.

A concentração também foi pro espaço. Ela que sempre foi uma ótima aluna, começou a ter dificuldades na faculdade. Dizia que lia a mesma página várias vezes e não conseguia absorver nada. Foi quando procuramos ajuda profissional.

Transtorno bipolar: as montanhas-russas emocionais

Se a depressão da minha irmã já foi um choque pra família, imagine quando descobrimos que minha prima, por parte de mãe, tinha transtorno bipolar. Esse foi outro nível de aprendizado sobre saúde mental.

O bipolar é como viver numa montanha-russa emocional constante. Tem os períodos de depressão, similares ao que descrevi antes, mas também tem os episódios de mania ou hipomania. Nesses momentos, a pessoa fica eufórica, cheia de energia, com a sensação de que pode conquistar o mundo.

Minha prima me contou sobre uma fase maníaca que teve há alguns anos. Ela acordou num sábado achando que ia revolucionar sua carreira. Passou o fim de semana inteiro planejando um negócio novo, fez dezenas de ligações, gastou uma grana que não tinha comprando equipamentos. Segunda-feira, já estava se sentindo meio estranha. Quarta-feira, mal conseguia sair da cama.

É cruel, porque nos períodos de mania a pessoa se sente incrível. Criativa, produtiva, sociável. Minha prima disse que às vezes sente saudade desses momentos, mesmo sabendo que não são saudáveis. Mas o problema é que depois vem a queda, e ela é proporcional à altura que a pessoa estava.

Durante um episódio maníaco, ela reorganizou o apartamento inteiro em uma noite. Moveu móveis pesados sozinha – coisa que normalmente pediria ajuda -, pintou uma parede de azul porque “estava inspirada”, e ainda fez uma faxina geral que durou até às 6h da manhã. No dia seguinte, mal conseguia levantar o braço de tanta dor muscular.

Transtorno de ansiedade: quando a preocupação vira doença

Esse aqui eu conheço de pertinho. Por muito tempo, achei que era apenas uma pessoa “preocupada demais” ou “ansiosa por natureza”. Minha mãe sempre dizia que eu era assim desde pequena – questionava tudo, queria saber todos os detalhes, me preparava pra mil cenários diferentes.

Mas tem uma diferença entre ser uma pessoa ansiosa e ter transtorno de ansiedade. A linha é tênue, mas existe. Quando comecei a ter ataques de pânico no trânsito, percebi que havia algo errado. Não era só nervosismo pré-prova ou aquela ansiedade básica do dia a dia.

O primeiro ataque foi numa segunda-feira, voltando do trabalho. Do nada, senti como se fosse morrer. Coração disparado, suor frio, sensação de que ia desmaiar. Parei o carro no acostamento achando que estava tendo um infarto. Fui pro pronto-socorro, fizeram mil exames, e estava tudo normal. “É estresse”, disse o médico. “Precisa relaxar mais.”

Relaxar mais. Como se fosse simples assim, né? O problema é que quando você tem ansiedade generalizada, sua mente não para nunca. É como ter dezenas de abas abertas no navegador do cérebro, todas processando informações ao mesmo tempo. Você acorda já pensando na lista de coisas pra fazer, nos problemas que podem surgir, nas conversas que precisa ter.

Comecei a notar como isso afetava meu corpo físico também. Dores no pescoço e ombros por estar sempre tensa. Problemas digestivos – meu estômago virava um nó quando eu ficava muito ansiosa. Insônia, porque mesmo quando estava cansada, minha mente continuava processando mil coisas.

Distimia: a tristeza crônica que poucos reconhecem

Esse é um que pouca gente conhece, mas que afeta muita gente silenciosamente. Minha sogra tem distimia há anos, só que ninguém sabia dar nome pra aquilo. Sempre foi uma pessoa “meio pra baixo”, como dizia meu sogro. Nunca muito animada, sempre com uma visão meio pessimista das coisas.

A distimia é como uma depressão light que dura muito tempo. Não tem aqueles picos de tristeza profunda da depressão maior, mas é uma melancolia constante, uma falta de alegria genuína que se estende por anos. Minha sogra funcionava normalmente – trabalhava, cuidava da casa, criou os filhos -, mas sempre com essa sombra emocional.

Foi só quando meu marido começou a fazer terapia (por causa de questões nossas do relacionamento) que ele percebeu os padrões da mãe. Conversando com o psicólogo, entendeu que aquilo que consideravam “jeito de ser” dela na verdade era uma condição que poderia ser tratada.

O interessante da distimia é que como os sintomas são mais sutis, muitas vezes a pessoa e a família se acostumam. Vira parte da personalidade. Minha sogra sempre dizia que não era de “ficar pulando de alegria”, que era mais “pé no chão”. Na verdade, ela não conseguia sentir alegria plena mesmo nos momentos bons.

Lembro do aniversário de 60 anos dela. Fizemos uma festa surpresa, com todos os filhos, netos, amigos. Todo mundo emocionado, chorando de felicidade. Ela sorriu, agradeceu, mas você percebia que faltava algo. Não era ingratidão ou desinteresse – era como se ela estivesse vendo tudo através de um filtro acinzentado.

Reconhecendo quando buscar ajuda

Uma coisa que aprendi nessa jornada com minha família é reconhecer os sinais de alerta. Não sou médica, mas convivi tanto com essas situações que desenvolvi uma espécie de radar emocional. Presto atenção quando alguém próximo muda drasticamente os padrões de sono, apetite, humor ou comportamento social.

Com minha irmã, o primeiro sinal foi ela parando de sair com as amigas. Ela sempre foi sociável, adorava um happy hour, cinema, essas coisas de gente jovem. De repente, começou a recusar todos os convites. Dizia que estava cansada, que não estava com disposição. Quando isso se repetiu por várias semanas seguidas, acendeu o alerta.

O importante é não esperar a situação ficar insustentável. Muita gente acha que precisa estar “muito mal” pra procurar ajuda, mas não é assim. Se você percebe que sua qualidade de vida está sendo afetada, que suas relações estão sofrendo, que você não consegue mais sentir prazer nas coisas que antes gostava, já é hora de conversar com um profissional.

Hoje nossa família tem uma relação muito mais aberta com saúde mental. Minha irmã faz terapia regularmente e toma medicação quando necessário. Minha prima aprendeu a identificar os sinais de mudança de humor e tem estratégias de manejo. Eu cuido da minha ansiedade com exercícios, meditação e, quando preciso, terapia. Minha sogra começou um tratamento ano passado e está visivelmente melhor.

O mais importante que aprendi é que transtorno de mood não define quem você é. É uma condição que você tem, como diabetes ou pressão alta. Com tratamento adequado, acompanhamento profissional e uma rede de apoio sólida, é totalmente possível ter uma vida plena e feliz. Não é fácil, não é rápido, mas é possível. E isso faz toda a diferença.