Dr. Bruno Psiquiatra Uberlândia

Entrando na depressão?

-Psiquiatra Uberlandia

Sabe aquela sensação de que o mundo, de repente, perdeu a cor? Não é que tudo fique preto e branco, como num filme antigo, mas as cores vibrantes, aquelas que faziam a gente sorrir só de olhar, parecem desbotadas, lavadas por uma chuva insistente que ninguém mais vê. Foi assim, aos pouquinhos, que uma névoa estranha começou a pairar sobre meus dias. Eu, que sempre fui a “descolada” da turma, a que topava tudo, a que via o copo meio cheio até em dia de enchente em Sampa, comecei a me sentir… diferente. Um cansaço que não passava com oito, dez horas de sono. Uma preguiça de viver que me assustava. E a pergunta, tímida no início, mas cada vez mais barulhenta na minha cabeça: será que estou entrando na depressão? Uma palavra pesada, carregada de um estigma que a gente, mesmo se achando supermoderna e informada, ainda teme.

Lembro de olhar pela janela do apartamento, aqui na Vila Madalena, e ver o sol lá fora, o burburinho da rua, os ipês floridos que eu tanto amava fotografar. Mas era como se existisse um vidro fosco entre mim e aquela alegria toda. O convite pra happy hour, antes irrecusável, virou um fardo. “Ah, gente, hoje não tô legal”, “Muita coisa pra fazer”, “Deixa pra próxima”. As desculpas foram se acumulando na mesma proporção em que a energia vital parecia se esvair. E o pior? A culpa. Culpa por não estar bem, por não “reagir”, por estar decepcionando os amigos, o marido, a mim mesma. Como se fosse uma escolha, né? Como se eu tivesse simplesmente decidido acordar um dia e vestir esse manto cinzento de desânimo. Mal sabia eu que estava apenas nos primeiros capítulos de uma jornada interna complexa, a tal “compra” de uma nova realidade que eu não pedi, mas que precisaria “instalar” e aprender a manejar.

Quando o Cinza Começou a Tingir Tudo: Os Primeiros Sinais Disfarçados

Olhando para trás, os primeiros sinais foram sutis, quase disfarçados de “cansaço do trabalho” ou “estresse da cidade grande”. Aquela reunião que antes me motivava, virou um suplício. O prazer de cozinhar, de inventar pratos no fim de semana, sumiu. O macarrão instantâneo virou meu melhor amigo. E o sono? Ah, o sono… Ou eu não dormia, revirando na cama com mil pensamentos aleatórios e angustiantes, ou eu apagava por horas a fio e acordava com a sensação de ter sido atropelada por um caminhão. Aquele peso no corpo, sabe? Como se a gravidade tivesse resolvido pegar só no meu pé. E a comida, coitada, perdeu o gosto. Tudo parecia ter a mesma textura, o mesmo nada. Detalhes sensoriais que, antes, me conectavam ao mundo, agora eram apenas… ruído. O cheiro do café pela manhã, que eu tanto amava, passou a ser indiferente.

Um dos maiores desafios, no início, foi justamente nomear o que eu sentia. Eu me sentia fraca, incompetente. “Isso é frescura, levanta essa poeira!”, eu mesma me dizia, repetindo frases que, infelizmente, a gente ouve por aí. A sociedade cobra da gente uma felicidade constante, uma performance impecável em todos os papéis: profissional, mãe, esposa, amiga. E quando você não consegue entregar esse “kit felicidade”, a sensação é de fracasso total. Houve um episódio, lembro bem, num almoço de domingo na casa da minha mãe. Todos falavam alto, riam, contavam novidades, e eu ali, presente de corpo, mas com a alma a quilômetros de distância. Minha tia, sem maldade, soltou: “Nossa, você tá tão quietinha, filha. Parece que chupou limão azedo!”. Na hora, dei um sorriso amarelo, mas por dentro, aquilo me corroeu. Era a constatação da minha inadequação, do meu descompasso com a alegria alheia. E como explicar que não era “chupar limão”, mas um peso invisível que me esmagava o peito?

A Busca por um Manual de Instruções (Que Não Existe): Entre Erros e Acertos

A “compra” da ideia de que eu precisava de ajuda foi lenta e dolorosa. Primeiro, neguei. Depois, tentei me “consertar” sozinha. Mergulhei em livros de autoajuda que prometiam “cinco passos para a felicidade instantânea” – que grande piada! Tentei meditação guiada por aplicativo, mas minha mente não parava de tagarelar, me julgando por não conseguir meditar “direito”. Um erro clássico, né? Achar que a gente dá conta de tudo sozinha. Que pedir ajuda é sinal de fraqueza. Que ingenuidade a minha! A “instalação” de uma nova rotina, ou melhor, a busca por ela, foi cheia de tropeços. Marquei e desmarquei consultas com psicólogos umas três vezes. O medo do julgamento, a vergonha de admitir que não estava bem, tudo isso pesava uma tonelada.

Meu marido, tadinho, tentava ajudar do jeito dele. “Vamos viajar no próximo feriado, espairecer um pouco”, ele sugeria, com a melhor das intenções. E a gente ia. Por alguns dias, a mudança de ares até dava uma animada superficial, mas era só voltar pra rotina de Sampa que o cinza voltava com força total, às vezes parecia que o inverno se instalava dentro de mim, independente da estação lá fora. No verão, ver todo mundo animado pra praia e eu sem vontade nem de levantar da cama era particularmente cruel. A luz forte do sol parecia agredir meus olhos, minha sensibilidade estava à flor da pele. Os amigos, alguns se afastaram, talvez por não saberem como lidar. Outros, os de verdade, ficavam por perto, mandando mensagem, chamando pra um café, mesmo que eu recusasse nove de dez convites. Essa persistência deles, sem cobrança, foi um dos poucos fios de cor que ainda me conectavam ao mundo. Uma dica que dou, baseada nessa experiência: se você tem alguém passando por isso, não desista dela. Um “estou aqui” sincero, mesmo que pareça não fazer efeito, faz. Ah, se faz!

Reaprendendo as Cores da Vida: Um Dia de Cada Vez, com Sol ou Garoa

Finalmente, com o empurrãozinho de uma amiga muito querida que já tinha passado por algo parecido, tomei coragem e procurei ajuda profissional. E que alívio foi poder falar tudo o que eu sentia sem ser julgada, sem ouvir conselhos vazios. A terapia foi como encontrar um farol em meio à tempestade. Não foi mágico, não foi da noite para o dia. Foi um processo, um reaprender a olhar pra dentro, a entender os gatilhos, a acolher minha vulnerabilidade. Descobri que a depressão não era uma falha de caráter, mas uma condição de saúde, complexa, com múltiplos fatores envolvidos. E que tinha tratamento. Essa simples constatação já tirou um peso enorme das minhas costas.

Aos poucos, fui “reinstalando” pequenos prazeres na minha rotina. Voltar a caminhar no parque, mesmo que por quinze minutos no começo. Sentir o cheiro da grama molhada depois da garoa paulistana. Preparar uma refeição simples, prestando atenção nas texturas, nos aromas. Coisas pequenas, mas que foram reacendendo a chama interna. O apoio do meu marido, depois que ele também entendeu melhor o que estava acontecendo, foi fundamental. Ele aprendeu a só estar junto, a oferecer um abraço em vez de soluções mirabolantes. A família, com o tempo, também foi compreendendo. Minha mãe, que antes se preocupava achando que era “tristeza passageira”, passou a perguntar como eu estava de verdade, a respeitar meus limites.

Hoje, posso dizer que aprendi a conviver com minhas estações internas. Há dias de sol radiante, onde as cores voltam a vibrar com força total. Há dias nublados, e tudo bem. A diferença é que agora eu tenho ferramentas pra lidar com a garoa sem que ela me afogue. A jornada não acabou, acho que é um aprendizado constante. Mas aquela pergunta lá do início, “Entrando na depressão?”, hoje tem uma resposta mais serena: “Sim, entrei. E aprendi a encontrar a saída, um passo de cada vez, respeitando meu tempo e minhas cores.” E se você, que está lendo, se identificou com alguma parte dessa história, a minha dica mais valiosa é: não tenha medo nem vergonha de buscar ajuda. Você não está sozinha. E o mundo pode, sim, voltar a ter cor. Acredite.