Dr. Bruno Psiquiatra Uberlândia

-Psiquiatra Uberlandia
Ansiedade constante? Quando a preocupação deixa de ser normal e se torna um sinal de alerta

Outro dia, no café aqui perto de casa, na Benedito Calixto – aquele cantinho charmoso que a gente adora pra ver a vida passar e fingir que o caos de Sampa não existe por uns instantes –, ouvi uma conversa na mesa ao lado. Duas moças, na casa dos trinta e poucos, falavam com uma naturalidade assustadora sobre ansiolíticos, terapeutas e diagnósticos de amigos. “Fulana descobriu que é bipolar”, “Ciclano tá com burnout”, “Beltrano não vive sem o remédio pra dormir”. Fiquei ali, disfarçando meu interesse no meu pão de queijo, mas com as antenas ligadíssimas. E a pergunta que não quer calar, que ecoa em notícias, posts de Instagram e rodas de conversa, voltou com força total: meu Deus, estamos mesmo vivendo uma epidemia de transtornos mentais? Ou será que, finalmente, estamos tirando a poeira debaixo do tapete e aprendendo a nomear dores que sempre existiram, mas que viviam escondidas nas sombras do preconceito e da falta de informação?

Essa sensação de que a saúde mental “entrou na moda” – e que perigo essa expressão carrega, né? – é palpável. Parece que a cada esquina tem alguém com um novo diagnóstico, uma nova crise. É como se uma lente de aumento tivesse sido colocada sobre nossas angústias, nossas fragilidades. De repente, termos que antes eram restritos aos consultórios psiquiátricos – TDAH, borderline, espectro autista em adultos – viraram quase que um vocabulário corriqueiro. E eu, que sempre me considerei uma pessoa informada, atenta, me pego questionando: o que mudou tanto e tão rápido? Foi a vida moderna que nos adoeceu a esse ponto? Ou foi a coragem que, aos trancos e barrancos, começou a brotar para falar sobre o que realmente sentimos? A “compra” dessa nova percepção, de que o sofrimento psíquico é mais comum do que a gente imaginava, não foi uma decisão consciente, mas um processo gradual, quase osmótico, impulsionado por uma avalanche de informações, relatos e, claro, pelas nossas próprias experiências e das pessoas ao nosso redor.

O Zumbido Constante: Quando a Saúde Mental Virou Pauta (e Preocupação) Universal

Lembro que, na época dos meus pais, ou até mesmo na minha adolescência, falar de “problemas da cabeça” era quase um tabu. Quem fazia terapia era “coisa de maluco” ou, na melhor das hipóteses, de gente “rica e cheia de frescura”. Hoje, a coisa mudou de figura. O assunto pipoca em todo lugar. Nas redes sociais, influencers compartilham suas jornadas com a ansiedade e a depressão com uma abertura que seria impensável anos atrás. Séries de TV exploram personagens com transtornos complexos, humanizando suas lutas. Até nas conversas de família, antes tão refratárias, o tema começa a surgir, ainda que timidamente. Essa “instalação” da saúde mental como pauta prioritária no nosso dia a dia é, por um lado, um avanço gigantesco. Quebramos muitas barreiras do silêncio.

Contudo, essa onipresença do tema também traz seus desafios. A gente começa a se perguntar se aquele cansaço no fim do dia é só cansaço mesmo ou um sintoma de algo mais sério. Se a tristeza por uma perda é luto natural ou o início de uma depressão. É como se, de repente, todo mundo estivesse com um pequeno manual de psiquiatria na mão, tentando encaixar os outros – e a si mesmo – em alguma caixinha de diagnóstico. Sinto que a textura dessa nova realidade é um pouco áspera, como um tecido bonito, mas que pinica a pele se a gente não souber usar. O som ambiente da nossa era parece ter um zumbido constante de alerta para a saúde mental, e às vezes é difícil discernir o que é cuidado genuíno e o que é um alarmismo que pode acabar gerando mais ansiedade ainda. Um dia desses, meu filho adolescente chegou da escola comentando que “todo mundo na sala tem TDAH”. Aquilo me acendeu um alerta. Será mesmo? Ou será que a informação, tão disponível, às vezes chega distorcida, sem o filtro necessário?

Entre o Alarme e a Compreensão: Navegando na Maré de Diagnósticos e Opiniões

Navegar nesse mar de informações é um dos maiores desafios. De um lado, temos acesso a um conhecimento que pode ser libertador e que, sem dúvida, tem ajudado muita gente a buscar ajuda e a se sentir menos sozinha. Por outro, corremos o risco de banalizar questões sérias ou de nos autodiagnosticarmos de forma equivocada. Um erro que percebo, e que talvez eu mesma já tenha cometido, é o de generalizar. Achar que toda tristeza é depressão, que toda distração é TDAH, que toda preocupação é transtorno de ansiedade generalizada. É preciso um equilíbrio delicado entre estar atento aos sinais e não cair na armadilha da patologização da vida cotidiana. Nem todo sofrimento é transtorno, mas todo transtorno envolve sofrimento e merece atenção.

Lembro de uma fase em que, consumindo muita informação sobre o espectro autista em adultos, comecei a ver traços em mim, no meu marido, em amigos. “Será?”, me perguntei várias vezes. Foi preciso dar um passo atrás, respirar fundo e entender que características isoladas não fecham diagnóstico e que a complexidade da mente humana não cabe em checklists de internet. A reação das pessoas ao meu redor a essa “epidemia” também é variada. Tenho amigos que mergulham de cabeça, compartilham cada novo artigo, cada novo teste online. Outros, mais céticos, acham que é “exagero”, “modismo”. Minha mãe, por exemplo, com sua sabedoria de uma geração mais antiga, outro dia me disse: “Minha filha, na minha época a gente também ficava triste, ansioso, mas não tinha tanto nome pra essas coisas. A gente só… vivia e tentava melhorar”. Há uma certa verdade nisso, mas também há o perigo de invisibilizar dores que, hoje, sabemos que têm nome, tratamento e que não precisam ser suportadas em silêncio. Encontrar esse meio-termo, entre o reconhecimento da dor e a medicalização excessiva da vida, é a grande questão.

Um Olhar Mais Atento, Menos Aflito: Cultivando o Cuidado em Meio ao “Contágio”

Então, como lidar com essa sensação de “epidemia” sem sucumbir ao pânico ou à banalização? Uma dica que tem funcionado pra mim é buscar fontes confiáveis. Acompanhar profissionais sérios, ler artigos de instituições respeitadas, desconfiar de soluções milagrosas e de diagnósticos feitos em cinco minutos por algum guru da internet. Outra coisa é cultivar a escuta atenta, tanto para os outros quanto para nós mesmos. Se algo não vai bem, se o “peso” no corpo e na alma persiste, procurar um profissional de verdade é sempre o melhor caminho. Não para buscar um rótulo, mas para encontrar compreensão e, se necessário, tratamento.

Na minha rotina, essa avalanche de informações sobre saúde mental me tornou, sim, mais atenta. Observo mais meus filhos, meus amigos, meu marido. Tento criar um espaço seguro para que eles possam falar sobre seus sentimentos, sem julgamentos. Mas também aprendi a filtrar. Não dá para absorver toda a angústia do mundo, nem para carregar o peso de todas as “epidemias” reais ou percebidas. A luz que entra pela janela do meu apartamento continua a mesma, mas a forma como eu a percebo, e como percebo as sombras, mudou. Há dias em que a garoa da preocupação com o futuro, com essa sensação de mal-estar coletivo, parece mais forte, especialmente no nosso inverno paulistano, que já tem uma melancolia poética. Em outros, o sol da esperança, da resiliência humana e da ciência que avança, brilha mais forte.

No final das contas, se estamos vivendo uma epidemia de transtornos mentais ou apenas uma epidemia de conscientização, talvez seja uma mistura das duas coisas. A vida moderna, com suas pressões e sua velocidade alucinante, certamente tem sua parcela de culpa no adoecimento psíquico. Mas a coragem de falar, de buscar, de nomear e de tratar essas dores é, sem dúvida, um sinal de saúde. Uma saúde que está aprendendo a se olhar no espelho, com todas as suas imperfeições, e a dizer: “Eu importo. Minha mente importa”. E essa, sim, é uma “epidemia” que vale a pena espalhar.