Dr. Bruno Psiquiatra Uberlândia

-Psiquiatra Uberlandia

Tempos atrás, criança agitada era só… criança agitada. Daquelas que subiam em árvore, não paravam quietas na cadeira da escola e tinham uma imaginação que parecia não ter fim. Adulto distraído? Bom, era o “avoado” da turma, o “cabeça nas nuvens”, que vivia perdendo as chaves ou esquecendo o que ia dizer no meio da frase. Hoje, parece que toda essa efervescência, toda essa distração, ganhou um nome e sobrenome: Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, o famoso TDAH. E não me entendam mal, de forma alguma quero invalidar a existência do transtorno ou o sofrimento genuíno de quem convive com ele e se beneficia imensamente de um diagnóstico correto e do tratamento adequado. Mas o que me inquieta, e muito, é essa sensação crescente de que estamos patologizando a vida, transformando qualquer desvio da “norma” – uma norma cada vez mais estreita e exigente, diga-se de passagem – em uma condição médica a ser tratada, muitas vezes, com remédio.

A “compra” dessa percepção de que algo está fora da curva no que diz respeito aos diagnósticos de TDAH não foi imediata. Foi um processo, alimentado por conversas com outras mães na porta da escola, por notícias que pipocam a todo instante sobre o aumento exponencial de casos, por adultos que, de repente, descobrem aos 30, 40 anos, que são TDAH e que isso explica toda a sua trajetória de vida. É como se a gente tivesse “instalado” um novo filtro de realidade, onde comportamentos antes vistos como parte da diversidade humana, ou simplesmente como traços de personalidade, agora são enquadrados, quase que automaticamente, como sintomas. E a pergunta que fica martelando na minha cabeça, enquanto tomo meu café e observo o ritmo frenético da Augusta pela janela, é: onde traçamos a linha? Onde termina a peculiaridade de cada um e começa, de fato, um transtorno que requer intervenção? A textura dessa dúvida é escorregadia, como tentar segurar água com as mãos.

Quando Toda Inquietação Ganha um Código: A Ascensão do TDAH e a Medicalização do Cotidiano

Lembro vividamente de uma reunião de pais na escola do meu filho mais novo. A professora, com a melhor das intenções, sugeriu que algumas crianças da turma, aquelas mais “desligadas” ou “agitadas demais”, fossem avaliadas por um especialista. Naquele momento, um burburinho tomou conta da sala. Vi mães trocando olhares preocupados, outras balançando a cabeça em concordância quase imediata. E eu ali, no meio daquele turbilhão, pensando em quantas daquelas crianças eram realmente portadoras de um transtorno e quantas eram apenas… crianças. Crianças que talvez estivessem entediadas com um modelo de ensino que pouco mudou nos últimos séulos, crianças que precisassem de mais espaço para correr e gastar energia, crianças que estivessem simplesmente processando o mundo no seu próprio ritmo.

O TDAH virou o diagnóstico da moda, não há como negar. E essa popularização, se por um lado trouxe visibilidade e acesso a tratamento para quem realmente precisa, por outro abriu as portas para uma medicalização em massa que me assusta. Parece que qualquer dificuldade de adaptação ao ritmo insano que a sociedade nos impõe – seja na escola, que cobra foco e disciplina desde cedo, seja no trabalho, que exige multitarefas e produtividade máxima – pode ser explicada (e resolvida) com um diagnóstico e uma pílula. O som ambiente dessa discussão muitas vezes é o da pressa: pressa em rotular, pressa em medicar, pressa em “consertar” o que, talvez, nem esteja quebrado, mas apenas desalinhado com as expectativas de um mundo que mal para pra respirar. Um erro que vejo com frequência, e que talvez eu mesma já tenha tangenciado, é o de buscar no diagnóstico uma solução rápida para problemas que são, na verdade, muito mais complexos e multifatoriais, envolvendo desde questões pedagógicas até dinâmicas familiares e sociais.

A Bula da Existência Moderna: Entre a Necessidade Real de Apoio e o Risco de Enquadrar a Diversidade Humana

O desafio aqui é hercúleo: como acolher e tratar adequadamente quem de fato tem TDAH, com todos os prejuízos que o transtorno pode acarretar na vida acadêmica, profissional e pessoal, sem cair na armadilha de transformar toda e qualquer característica humana que fuja um pouquinho do script em patologia? A pressão por performance é um dos grandes vilões dessa história, na minha modesta opinião. Vivemos numa sociedade que idolatra a produtividade, a eficiência, a capacidade de fazer mil coisas ao mesmo tempo e com perfeição. Quem não se encaixa nesse molde, quem tem um ritmo diferente, quem se distrai com mais facilidade ou precisa de mais movimento, acaba sendo visto como “problemático”. E aí, o diagnóstico de TDAH surge, muitas vezes, como um rótulo que, se por um lado pode trazer o alívio da compreensão, por outro pode também limitar, estigmatizar e, principalmente, desviar o foco das verdadeiras questões que podem estar por trás daquele comportamento.

Lembro de um amigo, artista plástico, uma mente brilhante e caótica, que sempre foi o “avoado” da turma. Recentemente, aos 45 anos, recebeu o diagnóstico de TDAH. Para ele, foi libertador. Muitas peças se encaixaram. Mas ele mesmo reconhece que, se não fosse o apoio da família e a sua própria resiliência, talvez tivesse sido apenas mais um “garoto problema” na escola, medicado e incompreendido. A reação das pessoas ao “boom” de TDAH é curiosa. Há os que defendem com unhas e dentes que é uma condição subdiagnosticada e que agora estamos apenas correndo atrás do prejuízo. E há os que, como eu, olham com um pouco mais de cautela, preocupados com os excessos e com a possibilidade de estarmos criando uma geração que não tolera o desconforto, a frustração ou a simples necessidade de se esforçar um pouco mais para aprender algo. Acredito que a verdade, como quase sempre, mora em algum lugar no meio desse caminho.

Resgatando a Nuance: Um Olhar Crítico (Mas Empático) para Além do Diagnóstico de TDAH

Então, como navegar nessas águas turbulentas? Uma dica que tem me guiado é a busca incessante pela nuance, pelo olhar individualizado. Antes de aceitar um rótulo, seja para nós mesmos ou para nossos filhos, é fundamental buscar avaliações criteriosas, com equipes multidisciplinares que realmente investiguem a fundo o que está acontecendo. É preciso questionar: essa dificuldade é realmente um transtorno ou é uma resposta a um ambiente inadequado, a uma metodologia de ensino que não contempla a diversidade, a uma pressão excessiva por resultados? Temos que ter a coragem de, por vezes, questionar o próprio sistema, em vez de apenas tentar “ajustar” o indivíduo a ele.

Na minha rotina, essa reflexão sobre a patologização da vida me tornou mais atenta aos “porquês” por trás dos comportamentos. Tento, na medida do possível, criar um ambiente em casa que valorize a individualidade dos meus filhos, seus tempos, seus interesses, mesmo que eles fujam um pouco do esperado. E, quando a “coceira” da dúvida sobre algum comportamento mais desafiador aparece, respiro fundo e procuro observar com mais calma, conversar, buscar outras perspectivas antes de pensar em qualquer “código” diagnóstico. O alívio de um diagnóstico correto, para quem realmente precisa, é inegável e transformador. Mas a leveza de aceitar nossas “imperfeições”, nossas distrações, nossas inquietações como parte inerente da complexa e maravilhosa bagunça que é ser humano, também é fundamental.

Acredito que precisamos resgatar um pouco da sabedoria dos nossos avós, que talvez não tivessem tantos nomes para as coisas, mas que sabiam acolher a diversidade humana com um pouco mais de naturalidade e menos ânsia por enquadrar tudo em manuais. O TDAH é real, o sofrimento é real, a necessidade de tratamento é real. Mas a vida, com toda a sua riqueza e imprevisibilidade, também é. E ela, definitivamente, não cabe numa bula.