Dr. Bruno Psiquiatra Uberlândia

“Agora tudo faz sentido”: o que dizem os adultos que descobrem TDAH ou autismo depois dos 30

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Até poucos anos atrás, TDAH e autismo eram vistos, em sua maioria, como diagnósticos infantis. Tratava-se de transtornos que “apareciam cedo” — e que, se não fossem identificados na escola, passariam despercebidos. O problema é que passaram. Em milhares de casos.

Hoje, psiquiatras e psicólogos se deparam com uma nova geração de pacientes adultos, muitos já com família, carreira e histórico de sofrimento psíquico não tratado, que estão recebendo pela primeira vez um diagnóstico de neurodivergência: transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno do espectro autista (TEA), ou ambos.

“Esses pacientes não são uma exceção. Eles só foram invisibilizados por décadas”, afirma o psiquiatra Dr. Bruno Oliveira, especialista em saúde mental do adulto e com experiência em diagnóstico tardio de transtornos do neurodesenvolvimento. Segundo ele, o avanço da informação — mesmo que pelas redes sociais — tem provocado uma verdadeira onda de reavaliações clínicas.

Quando o diagnóstico chega tarde — mas chega

Aos 37 anos, Daniela chegou ao consultório dizendo apenas que “se sentia errada desde sempre”. Trabalhava como designer, tinha crises de ansiedade constantes e nunca conseguia manter a rotina de trabalho organizada.

“Eu achava que era defeito de caráter. Preguiça, sei lá. Só fui começar a questionar de verdade quando meu filho foi diagnosticado com TDAH. E eu vi que tudo que ele sentia… era igual ao que eu sentia também.”

Casos como o de Daniela são mais comuns do que se imagina. “Muitos adultos só percebem os próprios sintomas quando um filho recebe o diagnóstico”, afirma Dr. Bruno Oliveira. “E aí começa um processo de reconhecimento. Como se uma luz acendesse em vários momentos do passado.”

Segundo ele, há um misto de alívio e revolta. Alívio por entender finalmente o que sempre incomodou. Revolta por ter passado tanto tempo sem nenhuma ajuda.

Não era “drama”, nem “frescura”

Para muitos desses pacientes, o diagnóstico traz uma mudança radical de perspectiva. E um acerto de contas com o próprio passado.

“Eu sempre me sentia deslocado. Não sabia lidar com barulho, com ambientes sociais, ficava obcecado com um assunto por meses e depois largava. Quando fui diagnosticado com TEA aos 42, foi como se minha história ganhasse legendas pela primeira vez”, conta Henrique, engenheiro, que procurou ajuda após um burnout.

O Dr. Bruno Oliveira explica que, nos adultos, o autismo e o TDAH costumam se manifestar de forma mais “camuflada”, mas não menos impactante: “Eles criam estratégias para parecerem funcionais, só que isso custa caro. Em energia emocional, em esgotamento, em baixa autoestima. E, muitas vezes, em sofrimento que ninguém vê.”

O papel das redes sociais — e dos preconceitos

Não é raro que o primeiro contato com esses termos venha da internet. Reels no Instagram, vídeos no TikTok, relatos em fóruns.

E isso, segundo Dr. Bruno, é uma faca de dois gumes: “Tem gente que critica, diz que é modismo. Mas eu vejo pacientes que começaram a procurar ajuda por causa de um vídeo. Que nunca tinham ouvido falar em TDAH em adultos antes.”

Claro, o autodiagnóstico tem seus riscos. Mas, como ele pontua, “às vezes, mesmo que a pessoa esteja errada no rótulo, ela está certa em perceber que tem algo fora do lugar. E isso já é um começo”.

Diagnóstico não é fim — é ponto de partida

Receber o diagnóstico na fase adulta pode ser uma libertação. Mas também é o início de um processo difícil: reconstruir a própria identidade à luz de uma nova informação.

“Tem paciente que diz: ‘Agora tudo faz sentido. Mas o que eu faço com essa sensação de que desperdicei metade da vida?’”, relata Dr. Bruno Oliveira. “É nesse ponto que a escuta cuidadosa e o acolhimento fazem toda a diferença.”

O tratamento varia. Para o TDAH, há opções medicamentosas seguras mesmo na fase adulta, sempre combinadas com acompanhamento psicológico e ajustes de rotina. No caso do autismo, o foco está no suporte psicoterapêutico, adaptação sensorial e educação socioemocional — sem a ideia de “curar”, mas de viver melhor com o próprio funcionamento.

“Diagnosticar é permitir que a pessoa entenda como ela opera. E aí sim consiga fazer escolhas mais conscientes sobre a vida que quer levar”, afirma o psiquiatra.

Nem sempre é tarde demais

Fernanda, diagnosticada com TDAH e traços de autismo aos 35, resume em uma frase o que ouvi de muitos entrevistados:

“Agora eu consigo ser mais leve comigo. Eu parei de me exigir ser o que eu não sou.”

Ela voltou à terapia, começou a usar medicação e reorganizou o trabalho para respeitar seus limites. “Pela primeira vez, eu não me sinto uma fraude. Me sinto alguém que só precisava ser compreendida.”

Referências clínicas

  • American Psychiatric Association – DSM-5: Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (2013)
  • Organização Mundial da Saúde – CID-11: Classificação Internacional de Doenças
  • Sociedade Brasileira de Psiquiatria – Diretrizes clínicas sobre TDAH em adultos (2022)
  • TEA Brasil – Associação Brasileira de Autismo, publicações e manuais técnicos
  • Barkley, R. A. (2018). Attention-Deficit Hyperactivity Disorder: A Handbook for Diagnosis and Treatment

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Doutor Bruno Oliveira

Me chamo Bruno Oliveira Paulo, sou médico Psiquiatra, e me formei em Medicina na UFU , tendo completado minha residência em Psiquiatria no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP. Agradeço sua leitura. CRM 76733 | RQE 57735